Altas temperaturas associadas a maiores taxas de homicídio em cidades da América Latina
16 de março de 2026 · Carolina Rendón, Katy Invdvik

- Pesquisadores analisaram dados diários de temperatura e registros de homicídios de 307 cidades em sete países da América Latina: Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, México e Panamá.
- Entre 2000 e 2019, mais de 1,1 milhão de homicídios foram registrados nas 307 cidades analisadas. Desses, 0,61% podem ser associados à exposição a calor extremo.
- Altas temperaturas foram identificadas como um fator adicional na complexa rede de fatores associados aos homicídios na América Latina.
- Este é o primeiro estudo a examinar a relação entre temperatura e homicídios em um número tão grande de cidades da América Latina, abordando uma lacuna importante à medida que as temperaturas globais e regionais continuam a subir.
A América Latina é atualmente a região mais violenta do mundo, mas, até agora, a relação entre o aumento das temperaturas e as mortes por homicídio tem sido pouco explorada. Um novo estudo do projeto SALURBAL-Climate, publicado na revista Environmental Research, apresenta a primeira evidência em larga escala que relaciona calor e violência na região. Pesquisadores analisaram dados de 307 cidades em sete países para entender como as mudanças climáticas podem impactar as mortes por homicídio.
Liderado pela Dra. Sara Lopes de Moraes, pesquisadora da Universidade de São Paulo, o estudo constatou que altas temperaturas estão associadas a um maior risco de mortes por homicídio. Cerca de 0,61% de todos os homicídios durante o período do estudo podem ser associados ao calor extremo.
“A temperatura desempenha um papel menor do que fatores estruturais como desigualdade, fragilidade do Estado de Direito, crime organizado, pobreza e condições econômicas”, disse Moraes. “Ainda assim, compreender essa relação pode ajudar a orientar estratégias para reduzir o risco de homicídios associados ao calor.”

Como o calor pode influenciar as taxas de homicídio
Embora este estudo não tenha examinado diretamente as razões por trás dessa relação, os pesquisadores apontam duas possíveis explicações. Do ponto de vista biológico, a hipótese de temperatura-agressão sugere que o calor pode aumentar o comportamento agressivo1. Do ponto de vista social23, a teoria das atividades rotineiras propõe que dias quentes levam mais pessoas a permanecerem ao ar livre, onde mais interações sociais, combinadas com fatores como o consumo de álcool, podem levar a conflitos e violência, especialmente quando associadas à irritabilidade e à desidratação relacionadas ao calor. Ambos os mecanismos podem interagir com fatores sociais subjacentes e desencadear homicídios.

Considerações para políticas públicas
À medida que as mudanças climáticas elevam as temperaturas, abordar o risco de homicídios relacionados ao calor se tornará cada vez mais importante. Os pesquisadores destacam que são necessários mais estudos para determinar as formas mais eficazes de integrar dados de temperatura aos esforços rotineiros de prevenção da violência e dos homicídios. Entre as principais estratégias a serem consideradas estão:
- Incorporar riscos relacionados ao calor no planejamento de segurança pública e na preparação para emergências.
- Desenvolver planos de ação para calor e saúde que considerem os efeitos sociais e comportamentais das altas temperaturas.
- Criar sistemas de alerta de calor para notificar as forças de segurança e apoiar ações preventivas de curto prazo em áreas de maior risco.
- Investir em medidas para mitigar altas temperaturas nas cidades pode ser uma estratégia importante que também pode ajudar a reduzir fatores de risco associados à violência e aos homicídios.
- Fortalecer a coordenação entre os setores de saúde, meio ambiente, planejamento urbano e segurança pública.
Este estudo faz parte do SALURBAL-Climate, uma parceria de pesquisa multinacional que produz evidências sobre as relações entre mudanças climáticas e saúde na América Latina. As instituições participantes incluem a Universidad Nacional de Lanús, na Argentina; a Universidade de São Paulo e a Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil; a Universidad Industrial de Santander e a Universidad de Los Andes, na Colômbia; o Instituto Nacional de Salud Pública, no México; e a University of California, Berkeley, o Urban Health Collaborative da Drexel University e a School of Public Health da University of Michigan, nos Estados Unidos.
Este projeto foi financiado pelo Wellcome Trust (financiamento 205177/Z/16/Z e 227810/Z/23/Z).
Contato para a imprensa: Carolina Rendón, especialista em comunicação, cr3283@drexel.edu
- Anderson, C. A., Anderson, K. B., Dorr, N., DeNeve, K. M., & Flanagan, M. (2000). Temperature and aggression. In M. P. Zanna (Ed.), Advances in experimental social psychology (Vol. 32, pp. 63-133). Academic Press. ↩︎
- Rotton, J., & Cohn, E. G. (2003). Global warming and U.S. crime rates: An application of routine activity theory. Environment and Behavior, 35(6), 802-825. ↩︎
- Cohn, E. G. (1990). Weather and crime. The British Journal of Criminology, 30(1), 51-64 ↩︎